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"Consideremos James Joyce, tido como o maior escritor dos tempos modernos. No fim do "Retrato do Artista quando Jovem", o herói do livro escreve no seu diário: " Bem- vinda sejas, ó Vida. Vou, pela milionésima vez, ao encontro da realidade da experiência, para moldar na forja da minha alma a consciência ainda não criada da minha raça." Em outras palavras, cada encontro criativo é um fato novo; e cada vez a coragem deve ser afirmada. O que Kierkegaard diz sobre o amor vale também para a criatividade. Cada pessoa deve começar do princípio. E encontrar a "realidade da experiência" é sem dúvida a base de toda criatividade. O trabalho consiste em "moldar a forja da minha alma", tão arduo quanto o ferreiro que dobra o ferro em brasa para fabricar algo valioso para a humanidade. Mas, notemos as últimas palavras, moldar " a consciência ainda não criada da minha raça". Joyce diz que a conciência não nos foi entregue já feita no monte Sinai, apesar das afirmações em contrário. Nasce, em primeiro lugar, da inspiração derivada dos símbolos e formas do artista. Todo artista autêntico trabalha na criação da consciência da raça, mesmo quando não o percebe. Não é um moralista consciente e intencional; procura apenas expressar o que vê dentro de si mesmo. Baseada nos símbolos que o artista vê e cria - como as formas criadas por Giotto para o Renascimento - ergue-se, mais tarde, a estrutura ética da nova sociedade. Porque a criatividae é tão difícil? E porque exige tanta coragem? Não se trata apenas de desfazer-se das formas antigas. Não. A metáfora de Joyce é muito mais do que isso: é tão difícil quanto moldar na forja da alma. É, sem dúvida, um enigma."
Autor (a) : Carola Trimano
Fonte : A Coragem de Criar * Rollo May
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